O que o design tem a ver com a política? – Entrevista com Gabriel Patrocínio

Política e design normalmente são assuntos que não se misturam muito. Porém, alguns desbravadores estão buscando entender melhor a relação que existe entre esses dois temas e como isso pode ajudar no desenvolvimento do design, especialmente no Brasil.

O pesquisador Gabriel Patrocínio é um entusiasta do tema e conversou um pouco conosco sobre esse assunto. Gabriel graduou-se em 1982 pela ESDI, de onde é hoje professor e foi vice-diretor e diretor entre 2000 e 2008. Desde outubro de 2009 reside no Reino Unido, desenvolvendo sua pesquisa de doutoramento sobre políticas públicas de design no C4D Centre for Competitive Creative Design, Cranfield University. Mantém desde 2008 os blogs http://www.politicasdedesign.com e http://www.designpolicies.com.

1) você tem um blog chamado “Políticas de design”. Poderia explicar um pouco mais o que significa o termo “políticas de design”?

Na minha pesquisa me refiro a “políticas de design”, ou melhor, “políticas públicas de design” como sendo princípios estabelecidos pelo governo para fazer uso do design como ferramenta estratégica de desenvolvimento social, econômico, industrial e regional. Estas políticas são geralmente pública e explicitamente estabelecidas, para que possam ser conhecidas e acompanhadas na sua implementacão.

2) como você vê a atual situação das políticas relacionadas ao design no Brasil em comparação a outros países?

O Brasil tem uma aproximação recente e ainda esparsa nesta área. Não temos, como alguns países, uma Política Nacional de Design, nem tampouco uma entidade articuladora de políticas públicas nos moldes do Design Council britânico ou do KIDP da Coréia do Sul. Ambos atuam com suporte direto do governo, e desenvolvem projetos, programas e ações de interesse do governo e da sociedade. Ambos contam com equipes especializadas e bem montadas, parcerias com universidades, associações profissionais e empresas. O Design Council foi criado pelo governo do Reino Unido ainda durante a segunda guerra, em 1944, para promover o desenvolvimento da indústria britânica e impulsionar a economia quando acabasse a guerra. Mas iniciativas neste sentido já se manifestavam desde o século dezenove, com as grandes feiras mundiais – especialmente a partir da Exposição Internacional de Londres, em 1851. E organizações profissionais de designers surgiram no Reino Unido, nos Estados Unidos e em outros países ainda nas primeiras décadas do século vinte. Assim, mesmo com golpes como a recente crise econômica, que fez com que o governo britânico cortasse o aporte direto de recursos para o Design Council (anunciado em outubro passado), este ainda consegue se articular para manter-se atuante e encontrar recursos para sobreviver.

No Brasil, podemos falar de intenções pioneiras desde o final do século dezenove. No entanto foi nos anos cinquenta, nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro que foram feitas as primeiras iniciativas de trazer o design como era visto então na Europa, através de cursos livres e workshops com designers de renome internacional. E no início dos anos sessenta o governo do recém criado Estado da Guanabara inaugurava a ESDI, trazendo o design para dentro da universidade e pretendendo formar adequadamente os profissionais necessários para alavancar a indústria nacional. Podemos falar que hoje temos na escala federal inserções ainda pequenas mas significativas no Ministério do Desenvolvimento – o Programa Brasileiro de Design, e no Ministério da Cultura. E ainda alguns estados tem estabelecido mecanismos de colaboração continuada, como é o caso do grupo consultivo que assessora o governo do estado do Rio de Janeiro desde 2007, através da Secretaria de Desenvolvimento. A colaboração do segmento de design com o governo do RJ já havia gerado, desde o início da década, o programa Rio faz Design, com exposições, premiação e outros pequenos eventos. O estado do Paraná tem também oferecido suporte ao design, com o Centro de Design Paraná, o mais ativo do país, e que tem oferecido apoio estratégico ao Programa Brasileiro de Design.

Ainda temos muito espaço para crescer, portanto, apesar de algumas importantes iniciativas estarem se sedimentando nos últimos anos. A Bienal de Design Gráfico da ADG e o Salão Design Movelsul / Casa Brasil, em Bento Gonçalves, são iniciativas que já alcançam maturidade e projeção internacional, mostrando para a sociedade a importância do bom design. A Bienal de Design Gráfico da ADG e a Casa Brasil, em Bento Gonçalves, são iniciativas que já alcançam maturidade e projeção internacional, mostrando para a sociedade a importância do bom design. E temos um mercado editorial crescente, editando bons livros e boas revistas, apoiado na grande quantidade de escolas de design e profissionais atuantes. Muitas outras iniciativas contribuem para promover o design no país, embora muitas vezes de forma cíclica e desconexa. Mas falta ainda esse elemento articulador, que possa circular entre as iniciativas de origens variadas, formatando, planejando, estabelecendo equilíbrio e fazendo a ligação com as diversas instâncias de governo e da sociedade. E mecanismos de avaliação e controle de qualidade, pois o design desprovido de qualidade pode ser extremamente prejudicial. Falo de qualidade no contexto internacional, num patamar que permita e facilite trocas comerciais, profissionais e acadêmicas. Desprezar a qualidade pode significar hoje ficar exposto à exploração do mercado local por grandes empresas internacionais de design, por exemplo. E essa qualidade passa inevitavelmente pela formação. Nossas escolas precisam se aperfeiçoar bastante para alcançar esse patamar. Não adianta ficarmos iludidos que a criatividade brasileira supera tudo – ela é um elemento forte com o qual contamos, mas está longe de ser a solução única.

Poderia dizer muito mais sobre o momento atual, que eu vejo como muito positivo, e sobre o futuro que acredito ser promissor, mas como esse é um dos tópicos da minha pesquisa, posso dizer que responderei melhor daqui a dois anos, em 40.000 palavras…

3) o que você acha que os profissionais e estudantes em design podem fazer em relação ao desenvolvimento dessas políticas em nosso país?

Em primeiro lugar, se organizar de forma consistente nas associações existentes. Se não dermos suporte às associações, não poderemos cobrar que a nossa atividade seja melhor reconhecida. E por falar em reconhecimento, a regulamentação profissional é, no contexto atual, uma necessidade. Não dá para se acreditar que, no mar agitado das profissões regulamentadas, iremos sobreviver com um projeto inovador de desregulamentação. Chega uma hora em que precisamos, apesar das opiniões diferentes, demonstrar união – senão nunca seremos considerados seriamente. Dar suporte às associações significa filiar-se, pagar as taxas regularmente, e contribuir voluntariamente na gestão e nas atividades da sua associação. Associações sem associados são cronicamente fracas. E cobrar das escolas uma melhora contínua na qualidade da formação profissional, inclusive a formação continuada, seja esta através de cursos rápidos, especializações, mestrados profissionalizantes. Isso deve ser feito em sintonia com as necessidades do mercado regional e buscando apoio de empresas, federações comerciais e industriais, e do governo. Se fizermos a nossa parte, poderemos cobrar do governo que faça melhor a parte dele também.

2 comentários sobre “O que o design tem a ver com a política? – Entrevista com Gabriel Patrocínio

  1. Rodrigo, só um comentário (que me escapou antes): acho que, com relação à apresentação (no final do primeiro parágrafo), eu diria que estou "buscando entender melhor a relação que existe entre esses dois temas e como isso pode ajudar no desenvolvimento do Brasil."acho isso importante de ser dito, pois existe uma diferença significativa entre "ajudar no desenvolvimento do design" e "ajudar no desenvolvimento do Brasil". não há dúvida que isso pode "ajudar no desenvolvimento do design", mas não como objetivo principal. entendo que, nesse caso, "ajudar no desenvolvimento do design" serve como um caminho para uma contribuição maior do design, que é "ajudar no desenvolvimento do Brasil".

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