A importância do ensino e da pesquisa para o desenvolvimento do design: entrevista com Sydney Freitas

O papel do ensino e da pesquisa é muito claro em boa parte das profissões, principalmente aquelas mais antigas como medicina e engenharia. Porém em outras mais recentes, como o design, esse papel nem sempre se torna tão claro com muita facilidade.

O pesquisador Sydney Freitas passou os 4 anos em que esteve dedicado ao seu doutorado estudando a situação do ensino e pesquisa no Brasil e tentando entender suas origens e principais características.

Atualmente Sydney é professor adjunto da ESDI/UERJ – Universidade do Estado do Rio de Janeiro – e professor titular do Centro Universitário da Cidade – UniverCidade. Tem Doutorado e Mestrado em Engenharia de Produção pela COPPE/UFRJ e graduação em Desenho Industrial pela PUC-Rio.

1) quando você terminou sua pesquisa sobre ensino e pesquisa em design, no final da década de 1990, qual era a situação naquela época?

Eu e a professora Anamaria de Moraes começamos pesquisa em 1995 e terminamos em 1999. Nessa época contávamos com aproximadamente 47 cursos de graduação e 1 mestrado na PUC-Rio. Em 1993 tinha sido criada a primeira revista científica, a Revista Estudos em Design e o primeiro mestrado em Design; em 1994 criamos o primeiro congresso científico da área, o P&D Design.

Nós não sabíamos direito o que era um congresso científico, pra que se fazia mestrado e doutorado, o que era uma revista científica. Muita gente levantou a voz para combater essas iniciativas. Os principais argumentos eram: “design é arte, não precisa de pesquisa”, “o importante é botar a mão na massa”, “design se faz fazendo”. E por aí vai. Frases inócuas e vazias.

Tinha uma turma – acho que ainda tem – que achava que a discussão sobre design se resumia à discussões sobre reforma curricular e sobre regulamentação da profissão. Mas o engraçado é que depois que os meios de produção científica – mestrado, revista e congresso – emplacaram, começou-se a dizer que tinha muita pesquisa no design, que precisávamos fazer mais desenvolvimento e menos pesquisa.

A falta da pesquisa tinha um impacto muito mais forte no ensino. A maioria dos professores se atinham a repetir o que tinham ouvido dos seus professores, não forneciam bibliografia para os alunos, afirmavam suas próprias opiniões como se fosse reflexo da verdade e confundiam oficina com laboratório de pesquisa. A descoberta desse perfil docente me orientou a formular as quatro tradições acríticas do design: reprodutivismo, espontaneísmo, consuetudinarismo e pseudo-ativismo.

2) o que você acha que melhorou de lá para cá?

Hoje temos mais de 400 cursos, 12 mestrados e 3 doutorados em funcionamento. Além do P&D, temos o CIPED que é um congresso internacional, o Ergodesign/USIHC e outros mais, nas áreas de gestão, design da informação, etc. Isso contribui muito para a formação dos professores e alunos. Consequentemente temos profissionais mais capacitados atuando também em nível gerencial e não somente no nível operacional.

Atualmente a pesquisa já é uma realidade que consta nos projetos pedagógicos dos cursos. Há um número de professores muito mais bem preparado cujas aulas são fundamentadas em conhecimentos e informações verificáveis. Nos cursos de design já se discute as metodologias, as opiniões, as pesquisas.

3) quais pontos você acredita que poderiam ter evoluído mais? Como os estudantes e profissionais de design podem contribuir?

Acho que o pessoal do design estuda muito pouco, quase que dá pra falar que não estuda nada. E olha que estou falando dos professores. Muitos não estudam, por ano, um livro sequer; a maioria nem sabe que existem congressos aonde se vai para discutir e aprender sobre conhecimentos sobre design. Ficam no mesmo nível dos alunos, se informando através de blogs, revistas e Internet. Isso tem que mudar. Espero que os leitores eletrônico – iPad, Kindle, etc – contribuam para isso.

Se os estudantes tiverem a iniciativa de ler pelo menos 2 livros – não estou falando de livros de figurinhas, não – por ano e participarem de pelo menos 1 congresso por ano, em pouco tempo teremos como renovar o corpo docente de todos os cursos, porque esses alunos deixarão de ser passivos e começaram a questionar o conhecimento dos seus professores. Espera-se que profissionais bem formados entrem no mercado não “para atender ao mercado”, mas para criar e transformar o mercado.

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